quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

VOLARE!!!


Quando a música tocou pela segunda vez,
vinte e cinco anos depois,
eu estava sentado na mesma ponta de mesa

sozinho e meditativo...

Vinte e cinco anos depois
a mesma música e a mesma ponta de mesa:

“Penso che un sogno cosi non ritorni mai più”.

À minha frente o aeromodelo às mãos,
as plantas, a cola, o papel, a ferramenta.
Sobre mim o sonho de vôos mais altos.
A elástico,a motor, planando sobre o ar puro de Araçatuba.
Na cabeça o pensamento distante.
Uma certa consciência da produção inútil.
Um pouco de desprezo ao vôo.
Uma falta de valor no sonho
e a busca por problemas reais.
Quando terei problemas reais?
Quando o valor será eu mesmo?
Quando precisarão de mim para a
Montagem da coisa humana precisar voar?
Na cabeça a fantasia de unir pedaços
humanos para sonhos reais
disfarçados nas minhas mãos
em cabeça-fuselagem, coração-nervura,
emoção-estabilizador, consciência-asa,
amor-motor, engenharia-humanidade.

Quando a música tocou pela primeira vez,
vinte e cinco anos atrás,
eu fazia meu estágio de ser humano
nas peças de um aeromodelo.
E ensaiava a reprodução da vida
na mesa do meu laboratório.
Dezessete anos, e eu aprendia
que não se mistura
a emoção com a cabeça.
O coração com a consciência
e que o amor é o que decola e
faz voar o modelo e a única peça que
pode funcionar errado em todo o mecanismo.
No exercício paciente da montagem
de cada nervura da asa e de sua
colagem à fuselagem a exatos 90 graus,
a descoberta da função precisa
de cada parte e o primeiro alumbramento
da integração emoção/consciência,
cabeça/inteligência,
coração/amor expressos no princípio
do equilíbrio no ar de um
objeto mais pesado que nossos
pensamentos.

O exercício seguia um ritmo
compassado: estudo da planta,
análise das 290 peças, leitura das
instruções, corte, polimento, colagem,
montagem, pintura, devaneio.
O tempo fluía sem pressa, sem
fome, sem sono, persistente.
Naqueles dias eu tinha um
amigo cego a quem eu explicava
cada passo, a forma, que ele
examinava com as mãos, e as
cores, que eu descrevia pelo valor
da intensidade diferenciada do
vermelho para o amarelo e o verde.
O branco...
Como era gozado ouvir o Lúcio
falar ao final da descrição:
“Nem quero ver ele voar”.
Nascia em mim a gratidão por ter olhos
e ouvidos para aprender sua fantasia

sozinha e meditativa...

Vinte e cinco anos depois,
a mesma música e a mesma ponta de mesa:

“Penso che un sogno cosi non ritorni mai più”.

À minha frente o quebra-cabeça às mãos
em algum lugar na capital de São Paulo.
O coração, a emoção, a consciência e
a inteligência e o amor são apenas 5 peças
que não se integram neste exercício
de ritmo descompassado, sem planta,
sem manual de instruções, sem pintura,
sem cor, sem devaneio, sem fantasia,
sem Lúcio, o que podia ver sem olhos e
hoje é advogado de tribunal.
Meu motor deu defeito e com ele
ficaram no chão meus sonhos de
vôos mais altos.
O tempo flui com pressa, com fome,
com sono, persistente.

Nesses tempos
meus amigos vêem tudo
e não me contam nada
e eu já não acho um privilégio
ser deles um assemelhado.
Restou entre nós essa ironia
da evolução da tecnologia.
Nosso modelo hoje só tem 5 peças:
Coração, emoção e amor,
inteligência e consciência,
mas esse avião não vai voar.

Como era mesmo o nome daquela música?

Será que ela tocou pela segunda vez?

domingo, 22 de fevereiro de 2009

ALTER EGO

Nossa jaula somos nós mesmos,
que vivemos polindo as grades em vez de libertar-nos.
Clarice Lispector
Há pelo menos um preso na penitenciária
que me representa definitivamente.
Mesmos olhos. Mesma altura.
Mesma impressão digital. Mesma cara.

Há pelo menos um embaixador de mim
naquele Presídio Federal.
Boca seca, amordaçada.
Dois terços livres não dizem nada.
É o mesmo braço caído atrás das grades.
O mesmo rosto preso aos ferros.

O resto está fora por acaso.

Sou eu lá dentro. Estraçalhado.
Mesmos olhos, mesma altura,
impressão digital e idêntica cara
reluzem lá dentro e cá fora.
Sou eu. Preso às celas
da histórica Penitenciária.
Silêncio por dentro e por fora.

Estou livre por acaso.

Há pelo menos um homem livre aqui fora
que me representa de forma compulsória.

Sou preso e dois terços me provam isso.
Na postura da janela só as grades dividem
meus membros já separados.

Rosto preso às grades
no sol da manhã rareado.
Braço caído nos vãos proporcionados.
Resto todo preso, consolado.
Como a parte fora, acomodada.

Estou livre por acaso.

O QUE SURTAVA


Olhando assim parecia um homem normal. Sei que isso é mais uma medida de estado mental da psicologia, mas assim parecia. Trabalhava como todo homem trabalhava. Vestia roupas normais. Sapatos normais. Sua aparência para quem não soubesse de mais nada era assim, ordinária.
Para si mesmo acho que se achava normal. Como sabia as regras sociais, o que elas exigiam, se comportava como elas previam. Tudo parecia fácil. A vida ia conforme as regras. Normalíssima.
Mas algo acontecia que ele não comentava com ninguém. Talvez nem a si próprio ele admitisse ser alguma coisa estranha. Achava normal. Achava ser fruto dos amores que tivera na vida. Resíduos de seu passado que se mostrava uma mistura de momentos de felicidades inesquecíveis e de tristezas muito profundas. Os amigos não percebiam seu desvio de estado normal porque nada de anormal acontecia quando estava perto deles. Parecia um normal como todos os normais da cidade e de sua sociedade. Mas não era normal...
Dirigindo seu carro pelas estradas da cidade ou pelos bairros internos dela, de repente, inesperadamente, vinha aquela nuvem de paixão que se fixava sobre sua cabeça e ficava chovendo uma recordação que inundava sua mente com um temporal de lembranças e recordações. A imagem do corpo dela tomava conta de sua cabeça. O temporal era tanto que o impedia de continuar dirigindo seu carro. Nessas horas ele olhava para si próprio e para suas roupas para ter a certeza que havia vestido as roupas certas antes de sair de casa. Isso o deixaria seguro de poder fazer o que quisesse logo à frente. Diminuía a velocidade do carro e conferia peça por peça. A camisa estava certa, não era uma daquelas do lado esquerdo do armário. Uma daquelas, se de manga curta, quando dava esse temporal, o impedia de movimentar a direção do carro ao seu bel prazer e o forçava a dirigir direto para o aeroporto da cidade. Se a de manga longa, ela o levaria direto para casa e só o deixaria em paz depois que ele ligasse o computador e reservasse uma passagem de avião para a cidade grande onde ela morava. E também não vestia um daqueles sapatos proibidos que o forçaria ir ao Banco para retirar dinheiro para a viagem. Ele não estava com nenhuma dessas peças que se quisesse ou não impunham sua vontade. Com sua cueca não precisava se preocupar. Essas peças eram irrelevantes. Não tinham vontade própria e ele nunca usava meias.
Esse vestir sempre dava muito trabalho. Não era fácil parecer normal.
Aos poucos reconhecia que esse era um temporal de saudades. De muitas saudades. E quando dava essas saudades e ele estivesse corretamente vestido, sem as peças perturbadoras que lhe imporiam suas vontades, ele podia surtar à vontade já que esse acontecimento fazia com que seu dia se acabasse a qualquer hora. E poderia fazer o que quisesse logo à frente.
Parava no bar. Tomava uma cerveja. Fumava. Chorava.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

AS PÁSSARAS DO PRÉDIO AO LADO


Assoviava, dava um pio,
Dava estritos pios,
Arrepios? Arre! Dava mil

Dava o que dava de fazer,
Por si, por ele, por ser frio...

No verão dava nada, só cio...
O calor não convida,
Incita à água, ao mar, ao vicio.

Ela nem ligava, ficava, atrasava, tava de luto
De fato o que ela faz eu espio

Ela só canta, vibra, põe estritos pios,
Eu, só sabor de vida, olho o primo e esquisso fato.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

JURADO DE MORTE


Estava lá. Fazia o que queria. E ela o aceitava. Não tinha mais ninguém. Escolhera ele mesmo... Na miséria se agarra ao que está à mão. Na falta de coisa melhor vai tu mesmo. Vivia pensando nisso. Merda por merda vai ele mesmo, isso pensava ela. Sobre ele. Pensava. E ele? Pensava nada. Nunca havia pensado nada. Era um box de banheiro. Um vaso sanitário. Um daqueles anões que se colocam no jardim. Quase nada. Uma merda. Nada. Nada. Mas, na desgraça ela gostava dele. Gostava. E gostava muito. E por isso era assim... Fazia o que o puto pedia, o que ele gostava... Tudo... Ele era daquele tipo deita no sofá e pede a cerveja, o cobertor, o travesseiro. Nunca mais visitei aquela casa por causa dele. Não agüentava. Não entendia porque ela resistia. O puto, o merda o sem escrúpulos. Nem o mínimo... Na verdade, valia nada... Certo? Mas as coisas são assim. Ele estava jurado de morte. Esses tipos demoram pra sucumbir, mas não perdem por esperar. Suas vidas estão encomendadas, são mortos sobreviventes, embalagens que se deslocam nos cenários com destino certo; sem destino. Futuro zero. Vida zero. Ternura zero. Todo zero.
Assim foi. 24 de dezembro. À noite. Foi encontrado perto do morro. Virado de costas. Meio carcomido. Meio sorrindo pelos cantos da boca. Acho que sabia que seu futuro seria esse. Levava a vida como prêmio. Sabia que não valia nada. Ou não sabia de nada. Nem disso sabia.
10Nov08