quinta-feira, 23 de abril de 2009

FORA DE PADRÃO

Foto: Mulher - Carlos Sillero - 2.006

Era rigoroso. Tinha padrões.
Definiu limites.
Altura, peso, formação.
Filhos, emprego...
Critérios medidos. Exatos.
Fora de padrão recusava.
Ela chegou. Encostou-se.
Macia que era,
Completamente fora de padrão,
Não fez perguntas. Não deu respostas. Ficou.
Já dura 10 anos.
Setembro, 2.008

IMPROMPTUS


Os Impromptus de Schubert enterneciam.
Cada opus uma ternura
Cada ternura um beijo, um afago nos cabelos, um abraço
Os Impromptus de Schubert fluíam
Cada fluido um toque, um poema, outro beijo, um olhar.
Os impromptus nasciam como nasciam poesias
De impromptus em impromptus tiveram oito filhos...

GUARDADOS


Foto: [987] Que lenta manhã nasce dos teus ramos - Luís Gonzaga Batista - 2.007

Desde menino guardava parafusos e porcas.
Tampas de garrafa. Maços de cigarros vazios.
Guardava. Guardava.
Mas bem que quando se precisava de alguma coisa ele tinha.
Era só abrir a gaveta.
Até couro de lagartixa seca ele tinha. Guardava.
Nunca se sabe...
Ele guardava e amava o que guardava.
Mas quando olhou o saldo viu que o lixo era grande.
Quando abriu a gaveta e procurou...
Viu que era tarde. Muito tarde.
Nas suas tralhas tinha quase tudo que amava.
Menos ela. Menos ela.
18 Setembro 08

Nós

Foto: Nunca é agora entre nós - Luís Gonzaga Batista - 2.007

Ela e eu. Eu e ela.
O que sou eu para ela?

Ela emulsão, eu emoção
Eu emulsificador.
Ela emulsificante.

Nós emulsionantes, emulsionados.
Emocionados?

Ela emulsão, emulsiva
Eu emoção

Nós, emulsionados,

Emulsificamos?

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O MENINO QUE OBSERVAVA

Foto: Brinquedos de meninos que viraram homens - Helton Braz Mussi 19/3/2.008


Primeiro foram os caminhões de bombeiros, de polícia e os ônibus. Depois vieram os trenzinhos. E os aviões foram descobertos mais tarde e acabaram ficando como se fossem nascidos consigo. Passaram-se tudo por suas especulações. Ser bombeiro, motorista de ônibus ou maquinista de trem. Ser polícia nunca o entusiasmou. Piloto foi uma coisa forte que ficou por muito tempo na sua cabeça. Misturava-se com a vontade de ter um monte de ônibus, uma garagem onde pudesse guardá-los todos enfileiradinhos como constataria mais tarde ser na realidade a forma de estacioná-los. Sempre sonhava com essas incursões pela estética das frotas. Passou-se também isso com relação aos caminhões carreta. Queria colocá-las todas bem alinhadas, certinhas, ao lado de uma doca de onde as mercadorias seriam carregadas para a saída da carga de manhã bem cedo. Lá onde morava, sem recursos, não sobrava muitas alternativas de sonhos. Lá se sonha o que se vê. O que se imagina. O que lhe contam. Havia um americano que o introduziu no mundo dos jipes. Contou-lhe histórias da guerra da Coréia e como os comboios se transportavam de um lugar para o outro com os jipes. Muitas vezes eles entravam até nos barcos. Mas barcos nunca o entusiasmaram. Os jipes sonhava todos enfileiradinhos, prontos para sair para a batalha bem cedo. Cada motorista em seu posto bem uniformizado e alimentado para o dia todo. Nunca havia assistido ainda a um filme sobre o desempenho dos jipes na guerra. Mas os imaginava com base no batalhão de sua cidade quando todos eram verdes e todos muito bem equipados com pás, machados e martelos. Reproduzia o que via, o que lhe contavam e o que aprendeu a imaginar. Foi aí que nasceu sua criatividade. Todas essas peças eram brinquedos. Imitavam a realidade. Não serviam para representar a realidade. Eram brinquedos. Eram ganhos, poucos comprados, quase todos pequenos e nem sempre muito iguais ao que se via na rua. Quando eram americanos eram superestimados. Se fossem japoneses eram de baixa qualidade e se fossem chineses pior ainda. Mas era o que ele tinha e o que se podia ter naquela época ali no centro do Brasil.

PROVOCAÇÃO

Foto: Pliim 28/12/2.007



Não chora ali por si mesmo. Chora porque o choro é provocado por ela. Não que ela esteja presente. Ele não precisa da presença dela para sentir-se tocado pelos sentimentos dele por ela. Suas imagens são suficientes para, quase sempre que ele se lembra dos momentos juntos, ele chorar, não se conformando com as suas ausências. E suas imagens são o que permanecem. Ela se foi, mas suas imagens ficaram. Ele considerou se desfazer delas. Pensou muito nessa possibilidade. Ele pensava muito sempre. Especialmente quando se tratava de pensar sobre assuntos com envolvimento emocional. Algumas vezes achou que seria fácil se desfazer. Era só se desfazer e pronto. Outras vezes achava que não tinha esse direito. Chegava a imaginar que poderia se arrepender ou até ser castigado por praticar um ato de alguma barbárie. No fundo era um homem delicado. Diziam os que o conheciam que ele não teria coragem de destruir um copo velho de geléia. Mas, enquanto não se decidia sobre como fazer para se desfazer das imagens, elas ficavam lá e lhe provocavam o choro... como neste momento.